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Quarta-feira, 2 de Abril de 2014

Dez réis de esperança

 

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,

 não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

 

António Gedeão

 

 

 

 

publicado por João Pita às 14:03
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1 comentário:
De António Querido a 18 de Abril de 2014 às 17:23
Do "Figueira Minha" para o "Cova D´Oiro", Uma feliz Páscoa! Com o meu abraço.

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