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Cova d'oiro

... algures na costa portuguesa mesmo a sul da foz do rio Mondego. Era, como se dizia então, um bom pesqueiro. Havia fartura de pescado e as artes, ainda novas e de não fácil manuseio, vinham carregadas até á vergueira

Cova d'oiro

... algures na costa portuguesa mesmo a sul da foz do rio Mondego. Era, como se dizia então, um bom pesqueiro. Havia fartura de pescado e as artes, ainda novas e de não fácil manuseio, vinham carregadas até á vergueira

corda01

“… Branquear, omitir...

“… Branquear, omitir, fazer de conta que podia ser pior é permanentemente arriscar a vida das populações com a ignorância, a desfaçatez, a incompetência e o desnorte de alguns que não têm o direito de nos pôr em maior risco. …”

 

Isto, assim, deste modo, dito logo no dia seguinte à Figueira da Foz ter sido fustigada por ventos ciclónicos como NUNCA se viram é, no mínimo, ignóbil - politicamente falando, claro. Porque, pessoalmente, o conhecimento que tenho do autor da dita frase não me permite dizer que o seja. Ignóbil.

No entretanto, queria dizer que o som surdo daquelas saraivadas que fizeram estremecer o CAE foi, no mínimo, arrepiante.

Apesar de algumas episódicas manifestações de pânico sentimo-nos em segurança, seguindo as indicações da Proteção Civil de permanência no espaço. Foram duas longas horas sempre com a preocupação de saber das condições de circulação nas pontes para o necessário regresso a casa. A ausência de redes móveis, que só apareciam a espaços, foi uma angústia acrescida.
O circular serpenteante na avenida das abadias, contornando as arvores caídas, fez-nos ficar em silêncio perante tamanha devastação. Seguimos as indicações da Proteção Civil em plena atividade de segurança, proteção e limpeza. O mesmo nas vias rápidas de acesso à ponte. Aqui, circulando em coluna de veículos (fez-me lembrar os longínquos tempos da guerra colonial) cada vez mais devagar e com mais cuidado.  Os pirilampos da Proteção Civil sempre a servirem-nos de guia e farol.

Ao entrar na Gala, mais pirilampos e mais intensos, vimos o nosso bote das artes por terra partido ao meio misturado com as árvores caídas e o nosso coração apertou-se, ainda mais. O telhado do recreio da escola nova desabado, partes do hospital jazendo em plena estrada, árvores e mais árvores caídas, telhados destelhados, janelas, marquises, varandas torcidas, placas, sinais, postes, candeeiros, retorcidos dobrados e caídos. E sempre o pirilampejar da Proteção Civil presente, limpando, sinalizando e desobstruindo.

O barco da arte da Cova d’óiro arremessado por uma onda de violência extrema partido a cem metros de distância, a bateira da praia do Hospital desmaiada na berma da estrada, quebrada.

Os equipamentos sociais e de turismo da Junta de Freguesia na paria da Cova, na praia do hospital, no parque de merendas, arrasados, destruídos e em escombros.

Logo de manhã bem cedo as pessoas mal dormidas saem e começam as limpezas. É neste momento que a areia se torna rainha, déspota e cruel, da Cova-Gala. Toneladas e toneladas de areia nas ruas, nos quintais, nos passeios, nas varandas, nas janelas, nas persianas, nas frinchas mais recônditas que possamos imaginar. Areia e mais areia e pessoas e famílias inteiras a limpar e a limpar.

Estas pessoas não perderam tempo a apontar o dedo a procurar culpados a criticar. Entenderam a sua verdadeira dimensão humana face à natureza e seus elementos (do qual fazemos parte) e fizeram o que lhes competia, a sua parte.

Da parte da tarde, era visível o início da reconstrução. Novamente as pessoas, famílias, amigos, agora mais organizadas, com maior solidariedade apoiavam-se mutuamente, separavam viveres, montavam andaimes, colocavam telhas, atavam, pregavam, soldavam, construíam. Telefonavam, combinavam encontros, acionaram seguros, pediram orçamentos e avançavam como seres humanos gregários e solidários.

Estas pessoas não perderam tempo a apontar o dedo a procurar culpados a criticar. Entenderam a sua verdadeira dimensão humana face à natureza e seus elementos (do qual fazemos parte) e continuavam a fazer o que lhes competia, a sua parte.

 

“… Branquear, omitir, fazer de conta que podia ser pior é permanentemente arriscar a vida das populações com a ignorância, a desfaçatez, a incompetência e o desnorte de alguns que não têm o direito de nos pôr em maior risco. …”

 

O político que afirmou isto pode pensar que, tendo uma máquina de apoio que funciona bem e sobre rodas, pode usar a desgraça alheia para se catapultar. Mas faz mal. O que esta simples gente, que já iniciou a reconstrução, quer é que os políticos tenham a capacidade de se recolherem na solidão do seu pensamento, constatarem a humilde singeleza da sua condição humana e, assim, entenderem os benefícios potenciadores da solidariedade agregadora e engrandecedora.

É por esta e por outras que é tao difícil entender a dificuldade da Figueira se libertar da sua tacanha condição.

Força, velho pescador!

Tenho mesmo de partilhar os belos momentos de fraterna humanidade que presenciei, hoje, depois do almoço, quando decidi ir tomar um cafezito ao portinho da Gala, mais precisamente ao espaço cultural e de convivio dos pescadores que, em boa hora, a Câmara e a Junta de Freguesia lá decidiram construir.
Como habitualmente, aquela hora, encontrei um espaço repleto de velhos pescadores covagalenses, quase todos reformados, alguns mais novos e emigrantes queimando o resto das férias.
Distribuidos pelas mesas entretinham-se a jogar às cartas conversando e bebericando uns cafés.
Há sempre retalhos de alarido e momentos de maior silencio que refletem as nuances e peripécias do jogo, mas, hoje, senti que havia por ali uma aragem de energia positiva como se a serenidade, a amizade e a fraternidade ali tivessem decidido repousar um pouco, fazendo companhia aqueles velhos pescadores.
Retirando a "bica" do balcão sentei-me à mesa dos Senhores Lucilio, Manuel e António. Não o fiz por acaso. Para mim aquela era uma mesa especial. Jogavam o Gin Rummy lenta e pausadamente.
O Sr. Lucilio, bem mais velho que os outros dois, invariavelmente e com o apoio do Sr. Manuel, pacientemente ajudava o Sr. António a jogar e a retirar e colocar as cartas no baralho. Por sua vez, o Sr. Antonio, compenetrado e focado, lentamente, alinhava as cartas na palma da mão de acordo com os naipes e valores. Vazava a carta que entendia largar e recolhia outra que aconchegava às outras. Sempre seguido pelo olhar atento e amigo dos seus parceiros. Era visivel, quase se sentia, o dificil desfiar do seu raciocinio, as suas contas e o esforço compenetrado com que executava os gestos do jogo.
E ganhou um que eu bem vi.
Talvez alguns de vós já tenham entendido e reconhecido os srs. Lucilio, Manuel e António.
Mas eu explico; o Sr. António sofreu há algum tempo um AVC, tendo ficado retido todo este tempo nos hospitais a tentar safar-se.
Agora, ainda precisando de ajuda para se levantar, sentar e movimentar, iniciou a sua recuperação e que bela fisioterapia teve ali com a ajuda dos seus amigos.
Um abraço, Sr. Lucilio Caneira.
Um abraço, Sr. Manuel Camarão.
Um abraço do tamanho do mundo, Sanguinho.
Força, velho pescador!

Esta Gente

 

Esta Gente

 

Esta gente cujo rosto

Às vezes luminoso

E outras vezes tosco

 

Ora me lembra escravos

Ora me lembra reis

 

Faz renascer meu gosto

De luta e de combate

Contra o abutre e a cobra

O porco e o milhafre

 

Pois a gente que tem

O rosto desenhado

Por paciência e fome

É a gente em quem

Um país ocupado

Escreve o seu nome

 

E em frente desta gente

Ignorada e pisada

Como a pedra do chão

E mais do que a pedra

Humilhada e calcada

 

Meu canto se renova

E recomeço a busca

De um país liberto

De uma vida limpa

E de um tempo justo

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia"

O Sr. João

O Sr. João

Sim, só assim desta forma simples, João.

Claro que podia acrescentar o apelido e tornar-se-ia de imediato mais conhecido da maioria, no entanto prefiro apresentá-lo como simples ser humano, “desapelidado” de família, mas filho de deus e nosso irmão.

Como qualquer um de nós o Sr. João foi-se moldando na argamassa resultante das características naturais advindas de seus próprios genes e de todas as circunstâncias que o foram envolvendo ao longo da vida. E, aqui, nas circunstâncias, identificamos a família, a escola, os amigos, o trabalho, os bairros, as aldeias e as sociedades.

O homem é de si mesmo e das suas circunstâncias.

Do mesmo modo que alguns nascidos num berço de oiro ao longo da vida se vão degradando tornando-se indigentes, outros há que nascidos na miséria dela se libertam e evoluem atingindo patamares de excelência.

Voltemos ao Sr. João. Aparenta ter oitenta anos alquebrados pela idade e pelas mazelas da vida umas procuradas outras nem tanto, pele curtida pelos dias e suja pela ausência de cuidados, agarrado a uma bengala que o vai ajudando no seu débil e precário equilíbrio, olhos baços de excessos, olhar vazio de vida. Veste sempre da mesma forma suja e andrajosa faça chuva ou faça sol, seja inverno ou verão; calças sujas, camisola suja, casaco sujo e calça umas botas sujas e gastas bem maiores que os pés.

O Sr. João está sempre em movimento, dobrado sobre si mesmo vai arrastando as suas botas pelas ruas da Cova e da Gala. Leva sempre numa das mãos um balde ou um saco de plástico. Neste arrastado deambular compulsivo em delírio de recolector vai do rio ao mar recolher o peixe que julga lá encontrar. Vai do mar ao rio no mesmo impulso delirante de recolector. E vai da doca do cabedelo à Gala, da Gala ao rio, do norte ao sul e do sul ao norte. Neste impulso delirante, o Sr. João não para, vai titubeando palavras que só ele entende e não consegue controlar as suas necessidades mais básicas e fisiologicamente humanas. Então, nem sempre só a urina escorre pelas pernas das calças e por lá seca.

O Sr. João avista-se ao longe e ao longe se sente sempre só, absolutamente só.

As circunstâncias que envolvem o Sr. João são a nossa sociedade, a sociedade onde se arrasta e deambula. Ia escrever vive mas não fui capaz.

A nossa sociedade, as suas circunstâncias, vê-o mas logo desvia o olhar. Para a nossa sociedade, o Sr. João só existe quando se avista. Parece que deixa de existir quando não o avistamos. Por onde andará o Sr. João quando a noite cai? Dormirá dentro de um qualquer carro abandonado ou entre dois muros coberto por duas tabuas, uns papelões e umas mantas? Não se avista, não se vê. As suas circunstâncias descansam.

Mas o que são as circunstâncias do Sr. João, a nossa sociedade? Uma sociedade normalíssima composta na sua maioria por cidadãos contribuintes de uma sociedade democrática e contributiva e que foi sonhada para que a dignidade humana fosse garantida, principalmente aos que mais precisam. Ninguém devia ficar para trás, sonhava-se então.

Será que ainda se sonha?

A nossa normalíssima sociedade que personifica as circunstâncias do Sr. João é composta, também, por vários tipos de poder; o autárquico, o judicial, o eclesial, o de sanidade pública e o de influência. Depois existem os parceiros sociais onde se incluem as coletividades (desportivas, recreativas, de cultura - não, não existem), as igrejas nas suas missões de fé bem-intencionada, as instituições de apoio social, as associações de pais, de moradores e as galas de mérito.

E ainda a comissão local social e o conselho de apoio social.

Ser eleito ou empossado para um qualquer destes poderes ou parcerias e ser presente às suas reuniões dá sempre uma determinada e efémera dignidade social.

Mas deixemos para lá isso e voltemos ao Sr. João, porque do que ele precisa mesmo é que a sociedade por onde se arrasta e deambula olhe para ele de frente e lhe garanta na precária vida que lhe resta a dignidade humana que merece.

Sei que não é fácil, não tem sido fácil, mas não sermos capazes de garantir a dignidade humana a um dos nossos devia envergonhar-nos.

Half Moon Run - Full Circle

 

 

Cap off kneelin' at the back of the church

Feelin' water on your brow

With it's heal and it hurts

At first a sharpish pain

that returns as a thought

That the needle in your skin

won't bring you closer to God

 

And I watch

As your head

Turns full circle

 

All hopeless with old coffee and a medical text

It's too easy knowin' nothin'

blowin' off the rest

And the riddles in the pages leavin' too much to guess

And the worry cracks a fracture

from your hip to your chest

 

As I watch

As your head

Turns full circle

 

You got lost in your travels

and a spiritual book

Mistook beaches for nirvana

in the way that they look

And the crooks that run the island

are killing to keep earning

They're burning seven tons of plastic

and it seems to be working

 

Is that the best

That I

Can do?

 

As I watch

As your head

Turns full circle

 

You appear even-tempered

though your looks will deceive

And the sparks are always flying

'cause you drink for relief

With the heart of a child

and the with of a fool

It's a wonder why

I don't try to build a wall around you

 

And I watch

As your head

Turns full circle

 

Maria do mar - Luisa Sobral

 

Todos os dias, Maria olhava o mar pela janela.
Maria era do mar, mas o mar não era dela.

E por viver numa ilha no meio azul plantada

Maria além do nome tinha o mar como morada


Maria, Maria do mar se o vento voltar

solta o cabelo vai ver os barcos partir

O dia há de vir em que um queira ficar

E só no teu nome navegar.

 

Sabe prever tempestades conhece as marés
Os peixes que bem cedo lhe vêm beijar os pés.

 

Maria, Maria do mar se o vento voltar

solta o cabelo vai ver os barcos partir

O dia há de vir em que um queira ficar

E só no teu nome navegar.

 

Luísa Sobral

 

Eu imbecil me confesso

 

Porque é Carnaval e as sociedades insistem em “aconchegarem-se” em castas, em classes e outras coisas afins.

 ...

 

Eu imbecil me confesso e pergunto ao idiota que vive em mim.

- O que fizeste idiota que me tornaste assim?

 

Neste que cala quando outros parlam

Parlam …

Neste que sorri com olhos tristes,

gémeos da real tristeza que refletem.

 

Neste que te questiona, idiota!

Porque não bajulas

E ao invés, sorrindo, te calas?

- Ganhavas um palmadão nos costados, pá!

Amigão!

Ah, grande amigão!

Assim, sim!

Tu és dos meus és dos bons!

Dos outros, Não!

 

Neste que te pergunta porque,

Contra a bajulice, insistes em os mandar

“Xapar” ao mar!

 

Eu imbecil me confesso e pergunto ao idiota que vive em mim.

Porque me fizeste assim?

Idiota!

 

Tens os Olhos de Deus

 

Letra e música de Pedro Abrunhosa

Canta Ana Moura

  

Tens os olhos de Deus

E os teus lábios nos meus

São duas pétalas vivas

E os abraços que dás

São rasgos de luz e de paz

Num céu de asas feridas

E eu preciso de mais

Preciso de mais

 

Dos teus olhos de Deus

Num perpétuo adeus

Azuis de sol e de lágrimas

Dizes: 'Fica comigo

És o meu porto de abrigo

E a despedida uma lâmina'

Não preciso de mais

Não preciso de mais

 

Embarca em mim

Que o tempo é curto

Lá vem a noite

Faz-te mais perto

Amarra assim

O vento ao corpo

Embarca em mim

Que o tempo é curto

Embarca em mim

 

Tens os olhos de Deus

E cada qual com os seus

Vê a lonjura que quer

E quando me tocas por dentro

De ti recolho o alento

Que cada beijo trouxer

E eu preciso de mais

Preciso de mais

 

Nos teus olhos de Deus

Habitam astros e céus

Foguetes rosa e carmim

Rodas na festa da aldeia

Palpitam sinos na veia

Cantam ao longe que 'sim! '

Não preciso de mais

Não preciso de mais

 

Embarca em mim

Que o tempo é curto

Lá vem a noite

Faz-te mais perto

Amarra assim

O vento ao corpo

Embarca em mim

Que o tempo é curto

Embarca em mim

 

Agora Nunca é Tarde

 

 Pedro Barroso

 

 

 

"Cada um de nós nasce com um artista cá dentro

Um poeta, um escultor, um aventureiro...

um cientista, um pintor, um arqueologo, um estilista, um astronauta, um cantor, um marinheiro".

...

"E se aquilo, aquilo que nos dão todos os dias não for coisa que se cheire ou nos deslumbre,
que pelo menos nunca abdiquemos de pensar com direito à  ironia, ao sonho, ao ser diferente.
E será talvez uma forma inteligente de, afinal, nunca... nunca, nunca ser tarde demais para viver,
nunca ser tarde demais para perceber,
nunca ser tarde demais para exigir,
nunca ser tarde demais para ACORDAR".

 

 

Os dois pretitos da minha idade

 

Estamos em mais um novo dia, só que este é especial, é 25 de Abril, dia da Liberdade.

Dizer liberdade parece pouco, tantas e tantas vezes a pronunciamos e porque, felizmente, a vivemos em plenitude nem damos por ela. Tão adquirida está, quase parece não existir, ou, por outro lado, não poderá ser outra coisa a não ser o que é: Liberdade.

Nunca sentimos a necessidade de a regar, de a alimentar para que não seque, para que não morra …

Apetece-me contar-vos uma estória de um outro tempo, do tempo da minha infância … do 24 de Abril e do império que nunca mais terminava.

Vivíamos numa cidade colonial, moçambicana, num bairro airoso cheio de sol e da nossa alegria juvenil que aumentava e muito quando estávamos de férias escolares. Nessas alturas invariavelmente discutíamos renhidos campeonatos de futebol de rua que começava de manhã cedo, tinha intervalo à hora do almoço e terminava tarde caída.

Jogávamos descalços que as ruas eram de saibro, as balizas eram duas sapatilhas e não havia guarda redes. Equipa que ganhava ficava e continuava a jogar e a que perdia saía e dava lugar a outra. Alguns jogos eram tão renhidos que até a policia, cipaios vestidos de caqui e armados de cassetetes, paravam a ver-nos correr e gritar atrás da bola a marcar golos e golos.

Sorriam os policias cipaios e aplaudiam quando as jogadas pareciam dignas de Eusébios, Colunas …

Um dia, de manhã, apareceram dois pretitos da minha idade.

Juntaram-se a uma das equipas e jogavam futebol que era uma maravilha.

Riam alegres e ganhavam e ganhavam …

Todos nós os queríamos ter na nossa equipa.

A meio da tarde o jogo decorria alegre e a equipa onde jogavam os dois pretitos da minha idade continuava a jogar e a ganhar.

E apareceram os policias cipaios que gostavam de nos ver jogar. Mas, daquela vez, não pararam a sorrir e a aplaudir.

Carregaram o sobrolho, sacaram dos cassetetes, invadiram o jogo, foram ter com os dois pretitos da minha idade, encostaram os cassetetes às costas nuas dos dois pretitos da minha idade e expulsaram os pretitos da minha idade do nosso jogo, dizendo:

- Vai, vai, não pode estar aqui!

- O teu bairro não é aqui!

- Suca, suca, vai, vai!

O sorriso dos pretitos da minha idade desapareceu, no seu lugar apareceu um enorme, mas não espantado, olhar de medo e fugiram.

Corremos para os policias cipaios a ralhar e a barafustar que não podiam fazer aquilo. Eles meteram os cassetetes à cintura e viraram-nos as costas …

Dei comigo a lançar um olhar furioso aos policias cipaios num misto de raiva e confusão, muita confusão sem compreender o que se tinha passado.

Nunca mais gostei de policias cipaios e muito menos dos seus cassetetes.

Por ironia do destino, anos volvidos, em finais de 1973, senti nos costados o ferrete do sabor ardente e dorido daqueles cassetetes, mas isso é outra estória…

 

Ultimatum

 

Mandado de despejo aos mandarins da Europa!
Alvaro de Campos 1917.
Versão de Maria Bethânia

 

Fora tu, reles esnobe, plebeu, fora tu, imperialista das sucatas, charlatão da sinceridade, banalidade em caracteres gregos, sopa salgada fria, fora com tudo isso, fora! Que fazes tu na celebridade? Quem és tu? Tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro, todos os outros, lixo, cisco, choldra provinciana, safardanagem intelectual, incompetentes, barris de lixo virados para baixo. Tirem isso tudo da minha frente, tudo daqui para fora. Ultimatum a todos eles e a todos os outros que sejam como eles. Todos!
Falência geral de tudo por causa de todos. Falência dos povos e dos destinos, desfile das nações para o meu desprezo. Passai gigantes de formigueiro. Passai mistos que só cantai a debilidade. Passai bolor do novo, passai à esquerda do meu desdém. Passai e não volteis, párias na ambição de parecer grande.
Passai finas sensibilidades, montes de tijolos com pretensões a casa. Inútil luxo, passai, vã grandeza ao alcance de todos, megalomania triunfante, voz que confundis o humano com o popular, que confundis tudo, chocalhos incompletos, maravalhas, passai! 
Passai tradicionalistas auto-convencidos, anarquistas deveras sinceros, socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar.
Vem tu finalmente ao meu asco, roça-te finalmente contra a sola do meu desdém. 'Grand finale' dos parvos, impotência a fazer barulho. Quem acredita neles?
Descasquetem o rebanho inteiro, mandem isso tudo para casa, descascar batatas simbólicas. O mundo tem sede de que se crie, tem fome de futuro.
Tu, Estados Unidos da América, síntese bastardia da Baixa Europa, alho da sorda transatlântica pronúncia nasal do modernismo inistético. E tu, Portugal, centavos, resto da monarquia a apodrecer república. E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral, que nem te queria descobrir. Ponham-me um pano por cima de tudo isso, fechem-me isso a chave e deitem a chave fora.
A política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência. Sufoco de ter só isso à minha volta. Deixem-me respirar! Abram todas as janelas, abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo. 
Nenhuma idéia grande, nenhuma corrente política que soe a uma idéia grão. Época vil dos secundários, dos aproximados, dos lacaios com aspirações a reis lacaios.
Sim, todos vós que representais o mundo, todos vós que sois políticos em evidência em todo o mundo, passai vozes ambiciosas do luxo cotidiano, aristocrata de tanga de ouro. Passai vós que sois autores de correntes sociais, de correntes literárias, de correntes artísticas, verso da medalha da impotência de criar. 
Passai, frouxos! Passai, radicais do pouco! O mundo quer grandes poetas, quer grandes estadistas, quer grandes generais. Quer o político que construa conscientemente os destinos inconscientes do seu povo. Quer o poeta que busque a imortalidade ardentemente e não se importe com a fama. Quer o general que combata pelo triunfo construtivo, não pela vitória que é apenas a derrota dos outros.
O mundo quer a inteligência nova, a sensibilidade nova. O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro. O que aí está não pode durar porque não é nada.
Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar. Eu, da raça dos descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir um mundo novo. Ergo-me ante o sol que desce e, à sombra do meu desprezo, anoitece em vós, e proclamo isso bem alto, braços erguidos, fitando o Atlântico e saudando abstratamente o infinito". 

 

A noite Alastra

 

Voz de Ana Margarida 

 

Paulo Marçalo é um jovem desta cidade.

É filho de pescadores e marinheiros, de gente do mar.

Talvez por isso, ou também por isso, foi um adolescente problemático, desajustado a um tempo e ao seu próprio tempo. Caminhou por ínvios caminhos da adição, da sujeição, da destemperança e do descontrolo anímico e emocional.

As suas capacidades cognitivas, acima da média, foram causadoras de uma, ainda, maior dor e desassossego.

Sempre gostou de escrever e, ao fazê-lo, foi descrevendo a sua angústia e revolta. A um tempo identificando-a como só ele o sabia fazer e, a um outro, a incapacidade de lhe pôr termo.

Vou ler-vos um dos poemas do Paulo.

 
A noite alastra, as trevas me invadem

Num sono ébrio e horripilante

Sou o desconcerto e o pecado de mim mesmo.

Sou um desgraçado perdido,

Sem vontade, nem destino

Aprisionado ao terror, ao mal que abomino.

Ferido e ensanguentado no ódio

Aterrorizo meu lar e a minha alma sofre.

Em preces rogo tempo e mudança

Mas, sem vontade nem confiança

Acomodo-me no vício que me destrói.

- E destrói quem me ama!

Terríveis pensamentos manchados de maldade

Me percorrem as veias, qual anarcas

Desferem golpes baixos sobre os mais fracos,

Que fragilizados e cegos de amor

Me continuam amar, desesperados.

Pela desgraça e miséria a que me tenho votado.

São anjos negros, espíritos destruídos

Consumidos pelo ódio, em segredo guardado.

Tento soltá-lo na ébria e negra fúria

Do meu olhar vago, sem tempero nem temperança,

Deserdado de fé , apartado da esperança.

 

Paulo Marçalo

1999

 

Naufrágio do navio-motor João Costa

 

Faz hoje 64 anos que naufragou, ao largo dos Açores, o navio João Costa, da frota de pesca de bacalhau à linha da Figueira da Foz.

Muitos figueirenses e covagalenses, dos seus 73 tripulantes, foram protagonistas de tão trágico acontecimento.

Fica aqui em jeito de homenagem este simples tributo.

 

Carregue no PLAY e ouça a voz da Ana Margarida.

 

 

O navio-motor JOÃO COSTA tinha largado de Lisboa a 15 de Abril de 1952 rumo aos Bancos da Terra Nova e Gronelândia.

Era um barco construído em madeira nos Estaleiros Navais do Mondego, na Murraceira, em 1945. Tinha cerca de 48m e era propriedade da Sociedade de Pesca Luso-Brasileira, Lda., sediada na Figueira da Foz.

Com 73 homens de tripulação, naquela campanha e, usando o método da pesca de bacalhau à linha com um pescador num dóri, pescou, carregou e salgou - ao longo de 5 meses - 11.000 quintais de bacalhau.

Assim carregado, iniciou a viagem de regresso à Figueira da Foz, no dia 18 de Setembro de 1952.

 

Cinco dias depois o navio deixou de comunicar com Lisboa. Perderam-se todas as comunicações via rádio.

A 23 de Setembro, pelas 20h00, quando boa parte da tripulação confraternizava comemorando o aniversário do camarada Penicheiro sentiu-se uma explosão seguido de incêndio na casa das máquinas.

Nesse momento o JOÃO COSTA navegava a escassos três dias de ter o cabo Mondego à vista e os familiares na barra à sua espera.

Rapidamente se constatou ser o fogo incontrolável e foi célere a decisão de abandono, face ao perigo de novas explosões nos tanques de combustível.

Os pescadores abandonaram o navio distribuindo-se por 22 dóris e, por ali se deixaram ficar ligeiramente afastados, assistiram ao afundamento do navio que submergiu totalmente na manhã do dia 24.

Começou então a tragédia da tripulação, perdida no mar sem água, nem alimento.

 

O capitão, João José Silva Costa, determinou que os dóris se dividissem em dois grupos e com o auxilio de duas bússolas tentaram navegar rumo à ilha de S. Miguel, que sabia estar a escassas 60 milhas para sul.

Os homens nos dóris tentavam, por todos os meios manter-se agrupados. Mas, se durante o dia era relativamente fácil permanecerem juntos, navegando à vela, já o mesmo não acontecia durante a noite e era terrível a dor e frustração de constatar, no dealbar da primeira luz do dia, o desaparecimento de alguns camaradas afastados por ventos e correntes.

A sede era tanta e tão terrível. Só ao terceiro dia os náufragos conseguiram aproveitar água da chuva que caiu em abundância.

A 27 de Setembro quis o destino que o navio Americano COMPASS, por mero acaso, encontrasse e recolhesse 12 náufragos, transviados dos outros. Lançou de imediato o alarme a toda a navegação na área e, como rumava ao Mediterrâneo, decidiu continuar o seu rumo e deixar os náufragos na costa do Algarve em Lagos.

Esta noticia chegou rápido à Figueira, suavizando o sofrimento que o silêncio das comunicações provocara. - Já se tinham salvo 12 homens. Não se sabia a identidade dos salvados e a angustia continuava. 49 dos seus tripulantes eram figueirenses de Buarcos, Vila Verde, Cova-Gala.

Finalmente, a 30 de Setembro, a cidade da Figueira da Foz recebeu com júbilo a notícia oficial de terem sido salvos todos os tripulantes do navio-motor JOÃO COSTA.

35 náufragos foram recolhidos pelo navio STEEL EXECUTIVE, logo seguido pelo HENRIETTE SCHULTE, que salvou os restantes 27 homens.

Desembarcaram todos em Ponta Delgada, Açores.

 E as pobres mulheres, pais, mães e filhos, que há dias lutavam com aquela horrível dúvida, deram largas à sua alegria, à qual se juntou toda a cidade festivamente.

Imagine-se a sua imensa alegria quando, passado alguns dias, puderam abraçar os seus familiares regressados sãos e salvos.

 

Terra, Vida, Saber, Ser.

 

O velho pescador, sentado com os antebraços apoiados na pedra da falésia de fronte ao mar, desenhava.

Mirava o mar e desenhava. Pintava.

Quem por ali passasse distraído diria que pintava as ondas, o mar e o horizonte.

Puro engano.

Olhando com mais atenção via-se que desenhava a própria mão. O braço esquerdo apoiado no cotovelo, sobre-elevado em diagonal, mão ligeiramente descaída e os dedos arqueados em concha, formando com o polegar uma espécie de gruta, de nicho. Um abrigo.

Contornou e reforçou o desenho do polegar, da unha e realçou a aspereza dos calos que uma vida inteira de trabalho no mar, ali deixara testemunho.

No interior da concha de abrigo em que se transformara a sua mão, desenhou uma flor, um cravo. Inundada de luz vermelha refulgente, mas tão frágil, tão fugaz, tão suspensa.

O velho pescador descansou o lápis mirou uma vez mais a flor, o cravo e, de seguida, alongou o olhar para o mar. Aí se ficou, ao longe se perdeu.

Num sobressalto retoma o lápis.

Desenha frenético, na parte inferior do papel, um chão de terra castanha atapetado pelo “Funcho do Mar” e salpicada, aqui e ali, do verde do “Chorão-da-Praia”. À esquerda, meia dúzia de viçosos “Lírios das Areias” escondem o emergir da terra do braço e do pulso. Ao centro, mesmo por debaixo da falange do polegar, três pedras húmidas e juntas abrigam um tufo de “Madressilvas”.

 

No centro do papel, sob a mão e à sua sombra, desenha um livro entreaberto pelo meio. Repousa sobre a cruz de uma âncora - um ferro almirantado - cravada no chão de terra.

A haste desta âncora alonga-se por de baixo do pulso e entrelaça-se pelo cepo a uma enxada cravada na terra. O longo cabo da enxada eleva-se em diagonal por detrás da mão e aponta ao cimo.

O velho pescador pára de desenhar, olha o mar uma e outra vez e retoma.

Desenha agora os contornos da folhas do livro e o mesmo ganha volume e conteúdo.

Procura um lápis mais grosso e escreve nas duas páginas abertas:

 

Na da esquerda, em cima: Vida.

Junto ao rodapé: Ser.

À direita , no topo: Saber.

Lá em baixo: Terra.

 

Levanta-se agora o pescador, estica as pernas e as costas já doridas. Olha o papel a sua obra e mordisca o indicador direito pensativo.TerraVidaSaberSerWEB.jpg

Torna a sentar-se e desenha uma hera trepadeira. Nasce do chão húmido, sob o livro e rente ao ferro almirantado. Cresce e trepa sinuosa até ao alto, à ponta do cabo da enxada. A ele se enrosca uma, duas voltas.

Suporta uma enorme planta, sem flor, meio seca e com as raízes suspensas no ar.

No canto superior esquerdo traça a risco esparso um sol que inunda de luz e calor todo o desenho.

Não resisto mais, chego-me ao velho pescador, que há muito tinha, discreto, topado a minha curiosidade.

- Ó ti Zé, desculpe a curiosidade. Porque desenhou a planta meio seca, suspensa no ar e sem ter as raízes na Terra?

Sorriu, mirou-me fundo nos olhos, deu-me o desenho e disse:

- Toma jovem, é para ti.

Olha-o com atenção.

Quando souberes a resposta a essa pergunta volta aqui.

Vem ter comigo e acabamos de o desenhar juntos.

 

 

Negrume de fogo

Negrume de fogo

 

Pairam vampiros negros, alados
Rolam negrumes de cinza em desnorte.
Línguas, labaredas, troncos tisnados....
Chiam arrepiantes leteias serpentes
Escarnindo uivos de anunciada morte.

 

Preces de angústia, impotente agonia.

 

Do limbo negro do telúrico inferno
Tisnados emergem, arrastando o caminhar
Anjos da paz de vermelho e negro vestidos.
Ombros caídos, ansioso e lívido olhar
Lágrimas secas cavam nas rugas leito,
Arfando angústia em dorido peito.

 

… pó da terra.bombeirosWEB (1).jpg

País sem norte!

 

Globalização de fogo ávido de ter
Devora queima, assa, mata e torra.

Monstro acéfalo e disforme.

 

Utopia, precisa-se!!!

 

Volte o verde, azul e fresco
Volte o Homem e a Natureza

 

Crie-se a Globalização Ambiental
E de todas as naturezas

 

Incluso a humana...

 

Mulheres do mar.

 

Carregue no PLAY para ouvir a Ana Margarida.

 

 

Sou a Ana Margarida, neta de pescadores, menina mulher da Cova-Gala onde nasci, vivo e trabalho.Sem Título-22 cópia.jpg

Ainda não me conhecem, mas prometo tudo fazer para, de aqui a uns tempos e com o correr das crónicas, nos conhecermos melhor.

Quando me propuseram este desafio logo me inundou o pensamento falar das mulheres do mar.

As mulheres, sempre presentes na vida dos homens do mar.

Iremos falar deste tema, recuando no tempo e descrevendo aspetos históricos da vivência de então.

Também falaremos das questões da atualidade e modernidade que, por ironia do destino, nalguns aspetos, de modernidade não tem nada, antes se assemelhando ao cinzentismo de outros tempos.

O sal que me corre nas veias deu-me o mar quando nasci.

Esse mesmo mar que tem alimentado gerações e gerações de Covagalenses, ao longo dos tempos, no seu infindável labutar.

Aliás, é esse mar que nos dá identidade enquanto povo.

Por ele e através dele cruzámos oceanos, pescámos nos mares da Terra Nova, da Gronelândia, de África, das Américas e da Ásia.

O que seria, como seria a vida dos pescadores sem a presença, “omnipresença”, das suas mulheres?

É comummente aceite que a vida do mar é para homens. O mundo do mar sempre foi considerado social e profissionalmente como masculino, de homens e só para homens.

Mas, será que é assim?

Será que, se repararmos bem nos comportamentos das comunidades piscatórias, não iremos encontrar muitos exemplos em que essa verdade é, foi, colocada em causa?

Será que não assistiremos a trocas de papeis e de tarefas profissionais com a mulher a ocupar papel de relevo?

Sim! Iremos, claro que iremos!

E mais, as mulheres do mar, sempre tiveram a cargo, sempre a seu cargo, a casa, a educação dos filhos, o amanhar da terras nos quintais, a gestão dos dinheiros, da míngua como se dizia então …

Enquanto os homens labutavam durante seis meses por ano, na pesca do bacalhau, nos mares do Atlântico norte, eram elas, as mulheres, que guardavam a retaguarda, sustinham o asseio, o sustento da casa e dos filhos.painel06

E ainda tinham tempo para carrear torrão nas marinhas de sal…

Trabalhar nas secas do bacalhau …

Descarregar e carregar barcos…

Puxar as redes das artes na praia …

Vender o pescado nas praias ...

Vender e apregoar o peixe pelas aldeias e cidades circundantes, calcorreando caminhos, cabeços e valados de canastra à cabeça …

Quase sempre sorrindo...

Sim, quase sempre sorrindo porque, apesar de tudo, ainda tinham tempo para folguear, cantar e bailar …

Por tudo isto me sinto tão menina mulher deste povo.

 

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