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Cova d'oiro

... algures na costa portuguesa mesmo a sul da foz do rio Mondego. Era, como se dizia então, um bom pesqueiro. Havia fartura de pescado e as artes, ainda novas e de não fácil manuseio, vinham carregadas até á vergueira

Cova d'oiro

... algures na costa portuguesa mesmo a sul da foz do rio Mondego. Era, como se dizia então, um bom pesqueiro. Havia fartura de pescado e as artes, ainda novas e de não fácil manuseio, vinham carregadas até á vergueira

corda01

Água - Pedro Barroso

 

Pus-me à noite a ouvir o mar
sentado na pedra sentado na areia
e senti uma barcarola criar devagar
esta melodia
tinha a crista e vaga desta vaga história
d'arte marinheira
luzia na prata mais rica,
mais rica mais rica que havia
e aquele pensamento d'ir e voltar sempre
que há na maresia
fez subir da água, dessa água toda, cem mil caravelas
era mais que o mar mais que a vida toda
quem ali fervia
e foi muito mais que um homem com guitarra
quem soltou as velas
tive ali a consciência
tinha ali a história toda
tinha ali um povo antigo
a cantar comigo uma canção de roda

Mergulhei da praia nessa história grande
de alma derramada
falei com mareantes e conquistadores
gente aventureira
crepitei nas ondas marés de ida e volta
partida e chegada
cortei fundo a crista do gume das vagas
duma vida inteira
mas daquele mar fundo fundo mar que lá fica sempre
trago só lembranças e um saco de tempo
s'é que o tempo presta
quem disser que o viu que o compreendeu
ou se esquece ou mente
pois no fundo hoje a raiva que ficou
é tudo o que nos resta

Tive ali a consciência
tive ali a história toda
tive ali um povo antigo
a cantar comigo uma canção de roda

 

Pedro Barroso

 

 

Czardas

Sublime

HAUSER & Caroline Campbell

Hauser e Caroline Campbell interpretando Czardas de Vittorio Monti no concerto de gala "HAUSER & Friends" na Arena Pula, Croácia, agosto de 2018

Ivo Lipanovic, conductor Zagreb Philharmonic Orchestra

Tudo isto se resume ao Amor.

Ter um filho é uma bênção e uma alegria infinita.
Querer ter um filho é querer ser abençoado pela felicidade de dar vida a um novo ser humano que nos perpetuará enquanto Humanidade.
Tudo isto se resume ao Amor.
Nesta perspectiva, ter um filho não será somente uma benção, mas também uma obrigação. Um casal que equaciona e planeia ter filhos é uma normalidade na perspectiva da felicidade de si próprio e dos outros que lhe sobreviverão.
Quando circunstâncias fisicas e hormonais não permitem que tal aconteça o casal junta ao amor que os une a dor que os desassossega. Surge então a ciência que pula e avança permitindo, de entre outras coisas, crio preservar sêmen para que possa ser inseminado e, assim, através da procriação medicamente assistida proporcionar a uma mulher, consciente e adulta, a alegria infinita de ser mãe.
Isto a propósito do casal que de forma consciente e expressa entrou neste processo médico tendo, inclusivamente, o marido crio preservado o seu sêmen.
Quis o destino déspota e cruel em forma de cancro os separasse e não tivessem tido tempo para ter a alegria infinita de ter um filho.
Quer agora a viúva manter e continuar o projecto a dois e ser inseminada com o material genético do marido falecido.
Eis que os velhos "conceitos de vida e família", alicerçados em normas, venham a terreiro proclamar alto e bom som que tal não é possível.
Arrogam-se no Direito a torto e a direito o entendimento do vivo e do morto não percebendo que, assim, negam a esta mulher - melhor dizendo - a este casal a bênção e a alegria infinita de ter um filho.
Não percebem que para além das normas e regras instituídas
tudo isto se resume ao Amor.

Vamos falar de politica.

Como podem reparar ao ler o titulo deste post subentende-se a utilização do pronome pessoal na primeira pessoa do plural e não, intencionalmente, no singular, porque todos entendem que a politica a sério e séria é sempre de todos e para todos e não só de alguns ou de algum em particular.
Se não for séria nem a sério ela, a politica, tende a ser rasteira e parcial com utilização intensiva de mandantes e serviçais, visando sempre algum interesse de ocasião que tanto pode ser de milhões como de tostões, ou, ainda, de triste figura onde os protagonistas quase sempre são truões.
E é de truões que se fala quando constatamos a filiação intencional e oportunística num qualquer partido apressando-se a cair nas graças do Sr. Dr., ou  Sra. Dra. para conseguir o tal murozito ou, a alteraçãozita das regras, aqui ou ali, para comodidade e interesse do próprio e desassossego da vizinhança. E é, também, de truão quando verificamos a criação de um blogue cujo primeiro e único objectivo é denegrir a imagem de outrem servindo, assim, em bandeja de blogueiro rasca e esvaziado de cultura cívica, a paz politica do poder instalado. Mas, é também de truães,  quiçá compelidos por invejices de vária ordem, a intempestiva menorização de um prémio Leya e a importância que o mesmo tem.

Deixando de lado este tipo de política vamos então falar da outra, a verdadeira a que deveria ser a única prevalecente. A que estuda, pondera, equaciona e trata da sociedade nas suas múltiplas vertentes.
Aquela que tem o Homem como alvo primordial, a sua dignidade e bem estar como objetivo primeiro e onde a educação, a saúde, o trabalho e a vivência social harmoniosa devem ter lugar de destaque.

E a propósito destes temas deixo-vos em companhia de um texto de uma professora que para além do exercicio da sua profissão se prepocupa com a política ... ou a falta dela.

"Violência (nas escolas)
vamos imaginar que os pais têm de trabalhar 8 horas por dia para ganhar o ordenado mínimo nacional ou pouco mais do que isso. vamos imaginar, que na melhor das hipóteses, os pais perdem cerca de 1 hora de viagem em transportes públicos, confortáveis e com lugares para todos, ou no seu próprio carro para chegar ao trabalho e depois chegar a casa. vamos imaginar que estes pais têm chefes/patrões que lhes pagam tarde e a más horas e ainda apelam ao seu bom senso, afinal é feio cuspir no prato onde se dá de comer e se reivindicam pelos seus direitos, os mandam enfiá-los onde quiserem. vamos só imaginar que há patrões/chefes que tratam os seus empregados como robots sem sentimentos que têm de produzir, produzir, produzir, todos os dias, fins- de semana, 24 horas sobre 24 horas, ininterruptamente. vamos só imaginar. vamos imaginar que os filhos destes pais estão diariamente à sua mercê ou porque já não têm avós que os cuidem ou porque os avós vivem longe ou porque já estão eles a precisar de cuidados ou porque os pais não têm dinheiro que pague mais uma despesa mensal, um ATL, uma sala de “estudos”, os filhos ficam à sua mercê. Vamos imaginar que estes filhos às vezes adormecem e faltam aos primeiros tempos da manhã porque até se deitaram tarde a jogar às escondidas, com a porta do quarto fechada, aquele jogo virtual onde, ainda assim, há alguém com quem se possa “estar”, eventualmente “conversar”. há alguém. há alguém acordado, porque os pais que acordam às 5 para saírem às 6, já dormem. vamos só imaginar. vamos imaginar que estes filhos diariamente fazem o que lhes apetece, comem o que lhes apetece, estão com quem lhes apetece, sabendo, porém, que em frente às escolas há sempre gente que se aproveita destas e de outras fragilidades e que ilude. há notas de euros em abundância, há a boa disposição que se compra e vende e “é na boa”. vamos só imaginar. vamos imaginar que os pais chegam a casa exaustos, sem paciência, na melhor das hipóteses sai um “correu bem o dia?” cuja resposta monocórdica é sempre “sim”, “o que é que almoçaste?”, “estava uma porcaria, carne com massa ou arroz com atum”, “comeste a sopa?”, “sim” e “lanchaste?”, “sim”. falta “com quem estiveste? o que é que aprendeste hoje?”, ou simplesmente “estás bem, filho(a)?” olhos nos olhos e um sorriso nos lábios. vamos só imaginar. vamos imaginar que ao chegar a casa, há o jantar para fazer, com o qual também se prepara a marmita para o dia seguinte, há roupa para estender, lavar ou passar, há a cozinha para limpar, ainda há uns relatórios para fazer ou ler, ainda há uns e-mails para responder porque há a hipótese de progressão na carreira ou quem sabe de um aumento salarial. vamos imaginar que os filhos que andaram por aí, estão por aí na sua própria casa e depois do jantar, na melhor das hipóteses, a família até se fecha em silêncio em telemóveis, tablets, computadores, “I” isto, “I” aquilo. vamos imaginar que na pior das hipóteses, depois do jantar, há as discussões constantes, os gritos pai-mãe, mãe-pai, pais-filhos, filhos-pais, filhos-cão-gato-amigos-escola. ESCOLA. vamos só imaginar. há os pais que sabem que isto é errado e repreendem mas ao repreender o ambiente pesa, todos sabemos o que é contrariar um adolescente e isto cansa, educar cansa e os pais deixam estar, afinal também têm o que fazer e assim os filhos estão entretidos. educar cansa, é mais um cansaço, é mais uma tarefa. vamos só imaginar. vamos imaginar que no fim do mês, depois de pagarem todas as contas, os pais que conseguem, compram aos seus filhos as sapatilhas da moda ou outra coisa qualquer de marca “que toda a gente tem”, toda a gente sabe que é muito mais fácil ser igual a toda a gente. os pais conscientes sabem que erram, sabem que não é a compensar com bens materiais que se educa um filho, mas cedem porque se sentem mal, porque se sentem culpados, porque não querem que os seus filhos estejam abaixo de ninguém a sofrer o preconceito na pele. os pais inconscientes nem sequer pensam nos filhos, nem sequer sabem nada, se a escola correu bem, se precisam de alguma coisa como um abraço, portanto não percamos tempo a falar desses, já se sabe o impacto nocivo que têm na vida dos seus filhos. vamos só imaginar que há alienação parental. vamos só imaginar. vamos imaginar que a violência nas escolas se deve a tudo isto e por isso, quando na televisão se tenta falar de violência nas escolas, não se fala realmente de violência, porque violentos são os dias e sobre isso ninguém quer falar. vamos imaginar. vamos só imaginar que temos um problema social gigante nas mãos e todos vivemos tão roboticamente os dias que nos negamos a falar dele."

Eunice Pimentel

 

"Okê arô", amigo!

"Okê arô", amigo!

IgualdadeWEB.jpg


Os Orixás, Exu e Oxóssi, dessa África que amamos e que para sempre morará em nós, nos guiam!
Eles, os Orixás, Deuses ancestrais equivalentes e mais antigos que Zeus e afins, destes se separaram preferindo viver no seio dos simples humanos que todos somos e também de todas as coisas.
Em toda a plenitude da sua sabedoria animista proclamam que em todas as coisas, em humanos e não humanos, viveria sempre uma alma e nela não haveria lugar a nenhuma separação da materia e da espiritualidade.
Assim, não haveria nunca lugar à condenação de alguém por pensar diferente, vestir diferente, ser diferente, falar diferente, ou ... ler um livro.
Abraço, Amigo.
OKÊ.
Isto a propósito de quem se julga no direito de depreciar o outro por ser diferente, pensar diferente, falar diferente, vestir diferente, ou … ler um livro diferente.
Às tantas o destino vos mostrará que no limbo emaranhado dos vossos neurónios e sinapses existirá um qualquer átomo ou quark determinante da vossa, essa sim, diferenciadora imbecilidade.

O Futuro do Planeta

Sylvia Earle e John Kerry 

Fundação Francisco Manuel dos Santos

Por este único mundo onde habitamos e apesar de todas as verdades absolutas que possuimos, algumas, para não dizer muitas, alicerçadas en crenças, palpites e também em interesses inviesados e gananciosos, devemos ouvir com atenção o que a ciência nos diz e, sem radicalismos, pensarmos que pode ser tudo mesmo radical se nada for feito ...
E é bem verdade: Nunca a humanidade teve tanto e tão bom conhecimento das causas e das consequências dos nossos actos e comportamentos.

Um pouco longo mas vale a pena ouvir com atenção.

(escolham em definições do video a legenda com tradução automática para portugues)

Os Últimos TerraNovas Portugueses

 

"… A pesca do bacalhau à linha só foi possível porque homens de aço tripularam pequenos navios de uma valentia marinheira espantosa:
o dóri …
Tempo de estudar as gentes que viveram, directa e indirectamente, esta saga brava …
Tempo ainda de referenciar perfis de figuras proeminentes a bordo a travarem luta empolgante com os desafios descartados, por vezes brutais, da natureza.
E desenhar as figuras matriarcais - mulheres viúvas de homens vivos, da sua importância no equilíbrio socio-económico daquelas famílias que, separadas, procuravam sobreviver.
Num tempo em que o futuro apenas aparecia na venda de ilusões que a propaganda procurava adoçar o sofrimento e a esperança. …
Analisamos sem peias ideológicas, desassombradamente, o que de mau teve o regime corporativo salazarista, mas e também, o que de bom foi, apesar de tudo, capaz de fazer. …"

Obrigado, Senos da Fonseca, pela gentil e gratificante distinção ao Cova D'oiro.

Os Ultimos TerraNovas Portugueses03.jpg

Os Ultimos TerraNovas Portugueses02.jpg

Bom Ano Novo

Bom Ano Novo sem emojis, gIFs, luzinhas e afins

Este texto tem o simples objetivo de desejar um esplêndido – creiam, foi o melhor e mais grandioso adjetivo que me ocorreu – esplêndido, espetacular ANO NOVO de 2019. Já agora carregado à vergueira de saúde, dinheiro, felicidade e escrito com LETRA GRANDE, maiúscula, para reforçar e enaltecer este nobre, leal e amigo desejo.
Repararam no à vergueira?
Gostei de ter escrito “à vergueira”. Apesar de ser uma palavra em desuso gosto dela porque significa fartura de pescado, redes a rebentar pela boca, pronúncio de mesa farta e alegre e tem o condão de me fazer recuar no tempo, imaginar quem aqui pelo mar chegou, nestas dunas se abrigou e se desenvolveu enquanto povo.
Eu disse “nestas dunas”?
Pois disse e se disse está dito, mas está mal-amanhado, porque de dunas já não temos quase nada. Quanto muito a saudade imaginativa da lembrança. E, aqui, olhando o mar da Cova neste dia solarengo e de mar manso que mais parece um enorme lago, não consigo imaginar a força poderosa e destruidora que o leva a provocar tamanha erosão que nos vai roubando as dunas a cada ano que passa.
Pois é, eu sei, isto não é assim tão simples!
Temos de colocar nesta equação a chamada bomba do atlântico, o aquecimento global e todas as obras que o homem vai fazendo alterando os cursos dos rios, o desaguar dos mesmos, o perfil da costa e o percurso das suas correntes. Ok, se calhar ainda haverá milhentas razões e motivos, mas declaro desde já as minhas limitações e falta de competências na matéria para não as conseguir elencar.
Dou comigo a sorrir com aquele sorriso velhaco e trocista como faço sempre que ouço tantos e tantos experts na matéria em grandes palestras a mandar bitaites sobre a erosão.
Mas, o que dói mais, dói mesmo mais é constatar a inépcia a incúria e a incompetência técnica e politica de quem tem obrigação de zelar pela segurança das pessoas e bens.
Viro-me para sul e a linha do molhe não permite que vislumbre a praia erodida e sem dunas, que tem por lá plantados uns sacos a que chamam de “geo-cilindros”. (Agora o acordo tramou-me, não sei se escrevo assim como está ou sem hífen.) O melhor é deixar ficar, ninguém vai levar a mal que os “geo-cilindros” fiquem mal na grafia, porque o que se quer, o que as pessoas preocupadas com a sua segurança com os seus bens e património desejam ardentemente e com muito força é que fiquem bem na eficiência.
Sinto pelas costas uma leve aragem da maresia que me faz recordar estar em finais do mês de dezembro.
- Bom dia sr. João, tem aí uma moedinha?
- Olá, Sr. João, bom dia! Como vai?
Estou a ver que não foi ao centro. Disseram-me que o senhor não quis ir ao médico fazer análises?
- Eu, não. Não sou pássaro de gaiola!
Vira-me as costas e lá vai, agora em direção ao rio no seu deambular compulsivo e constante.
- Bom Ano, Sr. João!
Torno a olhar a imensidão do mar a poente e pestanejo uma, duas vezes tamanha é a luminosidade refletida pelas águas calmas do nosso mar.
- Bom Ano Novo, Sr. João!

“… Branquear, omitir...

“… Branquear, omitir, fazer de conta que podia ser pior é permanentemente arriscar a vida das populações com a ignorância, a desfaçatez, a incompetência e o desnorte de alguns que não têm o direito de nos pôr em maior risco. …”

 

Isto, assim, deste modo, dito logo no dia seguinte à Figueira da Foz ter sido fustigada por ventos ciclónicos como NUNCA se viram é, no mínimo, ignóbil - politicamente falando, claro. Porque, pessoalmente, o conhecimento que tenho do autor da dita frase não me permite dizer que o seja. Ignóbil.

No entretanto, queria dizer que o som surdo daquelas saraivadas que fizeram estremecer o CAE foi, no mínimo, arrepiante.

Apesar de algumas episódicas manifestações de pânico sentimo-nos em segurança, seguindo as indicações da Proteção Civil de permanência no espaço. Foram duas longas horas sempre com a preocupação de saber das condições de circulação nas pontes para o necessário regresso a casa. A ausência de redes móveis, que só apareciam a espaços, foi uma angústia acrescida.
O circular serpenteante na avenida das abadias, contornando as arvores caídas, fez-nos ficar em silêncio perante tamanha devastação. Seguimos as indicações da Proteção Civil em plena atividade de segurança, proteção e limpeza. O mesmo nas vias rápidas de acesso à ponte. Aqui, circulando em coluna de veículos (fez-me lembrar os longínquos tempos da guerra colonial) cada vez mais devagar e com mais cuidado.  Os pirilampos da Proteção Civil sempre a servirem-nos de guia e farol.

Ao entrar na Gala, mais pirilampos e mais intensos, vimos o nosso bote das artes por terra partido ao meio misturado com as árvores caídas e o nosso coração apertou-se, ainda mais. O telhado do recreio da escola nova desabado, partes do hospital jazendo em plena estrada, árvores e mais árvores caídas, telhados destelhados, janelas, marquises, varandas torcidas, placas, sinais, postes, candeeiros, retorcidos dobrados e caídos. E sempre o pirilampejar da Proteção Civil presente, limpando, sinalizando e desobstruindo.

O barco da arte da Cova d’óiro arremessado por uma onda de violência extrema partido a cem metros de distância, a bateira da praia do Hospital desmaiada na berma da estrada, quebrada.

Os equipamentos sociais e de turismo da Junta de Freguesia na paria da Cova, na praia do hospital, no parque de merendas, arrasados, destruídos e em escombros.

Logo de manhã bem cedo as pessoas mal dormidas saem e começam as limpezas. É neste momento que a areia se torna rainha, déspota e cruel, da Cova-Gala. Toneladas e toneladas de areia nas ruas, nos quintais, nos passeios, nas varandas, nas janelas, nas persianas, nas frinchas mais recônditas que possamos imaginar. Areia e mais areia e pessoas e famílias inteiras a limpar e a limpar.

Estas pessoas não perderam tempo a apontar o dedo a procurar culpados a criticar. Entenderam a sua verdadeira dimensão humana face à natureza e seus elementos (do qual fazemos parte) e fizeram o que lhes competia, a sua parte.

Da parte da tarde, era visível o início da reconstrução. Novamente as pessoas, famílias, amigos, agora mais organizadas, com maior solidariedade apoiavam-se mutuamente, separavam viveres, montavam andaimes, colocavam telhas, atavam, pregavam, soldavam, construíam. Telefonavam, combinavam encontros, acionaram seguros, pediram orçamentos e avançavam como seres humanos gregários e solidários.

Estas pessoas não perderam tempo a apontar o dedo a procurar culpados a criticar. Entenderam a sua verdadeira dimensão humana face à natureza e seus elementos (do qual fazemos parte) e continuavam a fazer o que lhes competia, a sua parte.

 

“… Branquear, omitir, fazer de conta que podia ser pior é permanentemente arriscar a vida das populações com a ignorância, a desfaçatez, a incompetência e o desnorte de alguns que não têm o direito de nos pôr em maior risco. …”

 

O político que afirmou isto pode pensar que, tendo uma máquina de apoio que funciona bem e sobre rodas, pode usar a desgraça alheia para se catapultar. Mas faz mal. O que esta simples gente, que já iniciou a reconstrução, quer é que os políticos tenham a capacidade de se recolherem na solidão do seu pensamento, constatarem a humilde singeleza da sua condição humana e, assim, entenderem os benefícios potenciadores da solidariedade agregadora e engrandecedora.

É por esta e por outras que não é difícil entender a enorme dificuldade da Figueira se libertar da sua tacanha condição.

Força, velho pescador!

Tenho mesmo de partilhar os belos momentos de fraterna humanidade que presenciei, hoje, depois do almoço, quando decidi ir tomar um cafezito ao portinho da Gala, mais precisamente ao espaço cultural e de convivio dos pescadores que, em boa hora, a Câmara e a Junta de Freguesia lá decidiram construir.
Como habitualmente, aquela hora, encontrei um espaço repleto de velhos pescadores covagalenses, quase todos reformados, alguns mais novos e emigrantes queimando o resto das férias.
Distribuidos pelas mesas entretinham-se a jogar às cartas conversando e bebericando uns cafés.
Há sempre retalhos de alarido e momentos de maior silencio que refletem as nuances e peripécias do jogo, mas, hoje, senti que havia por ali uma aragem de energia positiva como se a serenidade, a amizade e a fraternidade ali tivessem decidido repousar um pouco, fazendo companhia aqueles velhos pescadores.
Retirando a "bica" do balcão sentei-me à mesa dos Senhores Lucilio, Manuel e António. Não o fiz por acaso. Para mim aquela era uma mesa especial. Jogavam o Gin Rummy lenta e pausadamente.
O Sr. Lucilio, bem mais velho que os outros dois, invariavelmente e com o apoio do Sr. Manuel, pacientemente ajudava o Sr. António a jogar e a retirar e colocar as cartas no baralho. Por sua vez, o Sr. Antonio, compenetrado e focado, lentamente, alinhava as cartas na palma da mão de acordo com os naipes e valores. Vazava a carta que entendia largar e recolhia outra que aconchegava às outras. Sempre seguido pelo olhar atento e amigo dos seus parceiros. Era visivel, quase se sentia, o dificil desfiar do seu raciocinio, as suas contas e o esforço compenetrado com que executava os gestos do jogo.
E ganhou um que eu bem vi.
Talvez alguns de vós já tenham entendido e reconhecido os srs. Lucilio, Manuel e António.
Mas eu explico; o Sr. António sofreu há algum tempo um AVC, tendo ficado retido todo este tempo nos hospitais a tentar safar-se.
Agora, ainda precisando de ajuda para se levantar, sentar e movimentar, iniciou a sua recuperação e que bela fisioterapia teve ali com a ajuda dos seus amigos.
Um abraço, Sr. Lucilio Caneira.
Um abraço, Sr. Manuel Camarão.
Um abraço do tamanho do mundo, Sanguinho.
Força, velho pescador!

Esta Gente

 

Esta Gente

 

Esta gente cujo rosto

Às vezes luminoso

E outras vezes tosco

 

Ora me lembra escravos

Ora me lembra reis

 

Faz renascer meu gosto

De luta e de combate

Contra o abutre e a cobra

O porco e o milhafre

 

Pois a gente que tem

O rosto desenhado

Por paciência e fome

É a gente em quem

Um país ocupado

Escreve o seu nome

 

E em frente desta gente

Ignorada e pisada

Como a pedra do chão

E mais do que a pedra

Humilhada e calcada

 

Meu canto se renova

E recomeço a busca

De um país liberto

De uma vida limpa

E de um tempo justo

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia"

Caravela Sagres St MManuela e Creoula

João Pita

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