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Cova d'oiro

... algures na costa portuguesa mesmo a sul da foz do rio Mondego. Era, como se dizia então, um bom pesqueiro. Havia fartura de pescado e as artes, ainda novas e de não fácil manuseio, vinham carregadas até á vergueira

Cova d'oiro

... algures na costa portuguesa mesmo a sul da foz do rio Mondego. Era, como se dizia então, um bom pesqueiro. Havia fartura de pescado e as artes, ainda novas e de não fácil manuseio, vinham carregadas até á vergueira

corda01

Século Velho

 

Poesia Angolana

 

Século Velho

 

Rosto sofrido / esculpido,

Face enrugada / martelada,

Mãos calejadas / marcadas,

Olhar distante / sentido,

Triste, nublado, cansado.

Cabelo ralo / esbranquiçado,

Barba farta / grisalha,

Própria da sua idade

 

Século velho ...

Tão velho como as minhas saudades.

 

 

Necas Carvalho

 

... nas tuas mãos começa a liberdade.

 

As mãos

 

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

 

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

 

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

 

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

 

 

Manuel Alegre

 

Homeward

Homeward by Bassey Ikpi

 

A caminho de casa, ou ... aquele que se dirige a casa.

A eterna procura das raízes e da identidade.

É desta forma que Bassey Ikpi a entende e a proclama.

Ouçamos...

 

 

Os Bajuladores

 

O que alimenta essa corja de inaptos?

Que água lhes mata a sede de destruir

O que, por inépcia, nunca chegaram a construir?

Que raio de terrível e maldito genes,Da net

Dá origem a estes mentecaptos?

 

Por favor!

Se souberem digam!

Urge curar o mundo desta corja!

 

É insuportável olhar os sorrisos bajuladores

Em dorso dobrado ao cínico fingimento.

O olhar velado de fingido constrangimento

Na incapacidade, confrangedora, de pensar.

Aceitam mudos e submissos as regras.

Mas, num ápice, nas costas dos que servem,

Logo destilam a crítica porca e inevitável!

 

Que reles alegria sentirão

Quando, nas costas de quem dependem,

Os maiores e indefectíveis adjectivos usam,

Ululando na eloquência de vermes venenosos,

Criticando tudo e todos sem sentido?

Com a mesma facilidade, quando,

Com as costas dobradas, tudo aceitam?

 

E sorriem em esgares desmesurados…

 

Já não suporto mais!

Por favor

Urge o remédio!

 

 

Algures em Agosto de 2003.

João PIta

 

 

Soneto quase inédito

 

 

Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,

Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.

 

 

JOSÉ RÉGIO

Soneto escrito em 1969, no dia de uma reunião de antigos alunos.

 

Analogias???

 

 

 

Os caminhos dos poetas

 

Uma obra é de uma vida inseparável…

Poetas? Serão sempre um pouco loucos
E existem, na verdade, muito poucos
Que abdiquem de um estatuto confortável
 
Pr`a perseguir um sonho até ao fim…
[sem apartar vivências de poemas,
quase ninguém será “poeta apenas”,
mas muitos haverá pensando assim…]
 
Vidas não se separam do que fazem,
Nem podem afastar-se do produto
Do que delas nascer na caminhada.
 
Poemas e poetas… quantos jazem
Na magoada eclosão dessoutro fruto
Duma compreensão que foi negada?
 
 
Soneto de
Maria João Brito de Sousa
em

Nasceu a Beatriz

 

 
 
Hoje o universo ficou maior.
Uma pequena e linda estrela
Brilhante e refulgente de cor
Na imensidão nasceu e por ti vela.
 
Rodopiam planetas, astros e cometas
Em vórtices pungentes de amor,
Num frenesim de festa e prazer.
Brilham por ti nossos olhos,
Lagos de água, ávidos de te ter.
 
Hoje o universo ficou maior
Ficou maior o universo.
 
Vieste com destino ao amor.
Todos os povos te laudam em verso
Aqui, ali e onde nem sabemos existir.
No plasma astral das constelações
Nas super novas, pulsares e portais
Todos te louvam salmos e canções.
 
Hoje o universo está mais feliz.
Por amor
Serena e feliz
Nasceu a Beatriz
 
 
 
 
 
"08 de Janeiro de 2003"
 
 
 

... 16 anos de idade, moço e pescador...

Carregue em PLAY e ouça, lendo ...
  

Tanto mar, tanto ar, tanto medo

Tanto frio, tanto nada, tanto gelo!

 

O que é que faço aqui?

Neste norte branco, neste vento.

 

Neste mundo, branca névoa.

Nesta bruma,

Nesta escuna

Neste bote, neste dóri.

Madeiro leve e lasso.

Nestas ondas deste mar

Do norte frio e de morte.

O que é que eu faço,

Que é que eu faço?

 

Quero fugir!

Fugir da ditadura 

Da surriada, do trole, bacalhau 

Da isca, da linha, zagaia e pingalim.

Este gelo corta como aço

Que tanto tortura, tanto dura.

O que é que eu faço, 

Que é que eu faço?

 

A tanto mar, tanto ar, tanto medo

Tanto frio, tanto nada, tanto gelo!

 

O que é que faço aqui?

Neste norte branco, neste vento.

 

Neste mundo, branca névoa

Nesta bruma,

Nesta escuna

Neste bote, neste dóri

Madeiro, leve e lasso.

Nestas ondas deste mar

Do norte frio e de morte.

  

O que é que eu faço,

Que é que eu faço?

 

08.09.05
João Pita

 

 

 

Esta herança, tu sabes, amigo

 

... a um soneto de um amigo

 

 

Recolhido em meu pensamento

Eu, para aqui, na tasca da “Hesbolina”,

Descansando à sombra de um belo momento,

Degusto a ébria e rubra essência “tanina”.

 

Percorro esse teu belo soneto, amigo,

Ode de amor à terra que é a tua.

Hino de glória a este povo antigo

E à aventura que tem sido a vida sua.

 

Sorrio e ergo meu copo, neste momento

Vislumbro-o, como que por um postigo,

E nem por um segundo eu lamento.

 

Esta herança, tu sabes, amigo,

Vem de trás, do mar, do sal e do vento,

Levá-la-ei para sempre comigo.

 

 

06.08.26

 

 

Tentações

 

Quiseram-me domar. Eu não deixei.
Quiseram-me a palavra. Eu não vendi
Pois não foi esse o preço que eu pedi
Nem é esse o destino que eu lhe dei.
 
Quiseram-me calar. Eu não calei.
Não sei se me ganhei, se me perdi…
Só sei falar daquilo que vivi
E não do que mais tarde viverei.
 
Tentaram – se tentaram! – condenar-me,
Impor-me soluções, depois calar-me…
Tentaram mas depressa desistiram.
 
Amanhã ou depois hão-de aceitar-me,
Depois, quando não queiram mais tentar-me
E não possam dizer que o conseguiram…
 
 
De Maria João Brito de Sousa
in Poetaporkuedeusker

 

 

Cântico Negro

  

 

Poema de José Régio

Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

 

José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.

 

P.O.W.

 

Confesso que foi surpreendente e, algo envergonhado, admito a ignorância.

De qualquer forma foi bom encontrar este momento e (re)descobrir Alicia Keys:

 

 

P.O.W.

P.D.P. (tradução)

Eu sou um prisioneiro
Das palavras por dizer
Apenas solitários sentimentos
Trancados na minha cabeça
Eu me prendo mais e mais
Toda vez que eu fico quieto
E deva começar a falar.
Mas eu paro e permaneço em silêncio
E, assim, eu tenho feito
Minha própria prisão de palavras por dizer

Eu sou um P.D.P.
Não um prisioneiro de guerra.
Um prisioneiro de palavras
Na maior parte das vezes eu digo somente
O que você quer ouvir
Você suportaria se eu fosse claro?
Ou você prefere me ver
Pedrado na droga da complacência e do acordo.
M.I.A.
Acho que é o que sou
Raspando esta terra dura e fria
Por um pedaço de mim mesmo
Por um pedaço em mim mesmo

Seria mais fácil se você me pusesse numa prisão
Se me trancasse
Eu teria alguém pra culpar
Mas essas barras de aço fui eu quem as fez
Elas cercam minha mente
E me têm  agitado.

Minhas mãos estão presas atrás das minhas costas
Eu sou um prisioneiro do pior tipo, de facto.
Um prisioneiro do compromisso
Um prisioneiro da compaixão
Um prisioneiro da bondade
Um prisioneiro da expectativa
Um prisioneiro da minha juventude
Correndo bastante rápido para ser velho
Esqueci o que me foi dito
Não serei uma visão para contemplar?

Um prisioneiro da idade que morre para ser novo
Na minha cabeça está a minha mão com uma arma
E está frio e está difícil
Porque não há por onde fugir
Quando se prendeu a si mesmo
Por segurar sua língua.

Eu sou um prisioneiro
Das palavras por dizer
Apenas solitários sentimentos
Trancados na minha cabeça
É como um solitário confinamento
Toda vez que eu fico quieto
Eu deveria começar a falar
Mas eu paro e fico em silêncio
E agora eu fiz
Minha própria cama dura
Dentro da prisão das palavras  por dizer

Porque amanhã é 25 de Abril!

 

Amanhã é 25 de Abril e comemora-se o dia da Liberdade.

Porém, hoje, ainda é 24 de Abril. Véspera da esperança e da utopia.

E, enquanto ela - a liberdade - não chegava a juventude "daquele" Portugal vivia o quotidiano que, por vezes, passava por dar a vida ( para glória do Império) de forma cuel e desumanamente anónima num destino que não escolhia nem desejava.

 

Partilho convosco a desdita de um amigo de infância, o Chico.

Morreu em Setembro de 1973, de Portugal fardado, estilhaçado por uma mina, numa picada, algures em Moçambique.

Dali a escassos quatro meses era eu que me apresentava, como recruta, na Escola prática de infantaria de Boane.

Para lá, milicianamente obrigado, fui ... mas mais consciente e, porque não dizê-lo, com muito, mas muito mais medo!

 

 

O Alferes Chico
Filho de indiana e português
 
 
O Chico era filho de Indiana e Português.
O primeiro vagido, em Goa, o pai lhe ouviu.
De militar era varão e o mais velho de três.
Ainda menino da Índia Portuguesa fugiu
E à Beira quente de Sofala, um dia chegava.
 
Sua mãe, saudosa, a amada Goa não esquecia
E o Chico sabia, por isso, mais a amava.
Com seu largo coração, do tamanho do amor
A dor que a enviuvou, mais depressa fenecia,
Apesar de ele por seu pai sentir tamanha dor.
 
Os sapatos rotos, glória da militar pensão,
Palmilhavam dia a dia o caminho da escola.
Assim foi crescendo em tamanho e coração.
De Baden Powell, o exemplo cantou à viola
E a linda e loira Marília amou como Platão.
 
Quando, já homem, à guerra o obrigaram a ir
Com Marília, um dia jurou, por amor se ligar.
Louvando sonhos castos de carne por ferir,
Ali mesmo juraram, um dia, virgens se casar.
E, vos juro, Chico a Zona Verde nunca pisou.
 
A nós, amigos, ao deboche jovial sempre disse
Jura de amor por sua Marília ele nunca ousou
Um dia sequer pensar que não cumprisse.
Até‚ quando, no mato, com febres doente ficou
E a negra, bonita e meiga, seu corpo desejou.
 
Alferes amigo, de riso fácil e coração quente.
Seus homens, debaixo de tiro, sempre comandou.
Perguntou-se do porquê dessa guerra demente.
Seu sangue, misto de sangues, nunca aceitou
Que Portugal valoroso de cultura universal
Se perdesse na utópica posse da terra de outrem.
Derramasse sangue jovem do povo sem igual
Para ser dono de quem não quer ser de ninguém.
  
Certo dia à Beira foi ter com a virgem Marília.
Falar com o amigo e bom padre Fernando
Marcar o dia em que, com Marília, se casaria.
Sete dias pela Beira, à civil, esteve namorando.
Contou, no seu jeito de enleio, a guerra que fazia
Quando, com os amigos, um copo ia petiscando
E as lágrimas sofridas pelo camarada que morria.
 
Um dia o Chico, de alferes fardado, a estrada tomou
Com destino à Companhia, algures no mato a poente.
A coluna, pela picada de Tete, em Moatize, a tomou.
Alegre, o Zé viu e a seu lado no carro da frente
Se sentou, em cima do rebenta-minas Berliet.
Ria alegre com o Zé quando um estrondo insano,
Faz saltar a Berliet e com ela, o Chico e o Zé.
 
Oh, Chico um azar nunca vem só!
Quando caíste, acertaste noutra mina
E tu amigo, ali quase te tornaste pó
Tantas foram as partes em que te recolheram.
Regaste de vermelho vivo do teu sangue
As amadas terras de África, que te acolheram.
Delas te despediste, estilhaçado e exangue.
 
Um dia, lembro-me, uma coroa de flores
Abraçava a bandeira do teu caixão.
Pensei no vermelho, na bandeira, nas cores
As mesmas que simbolizam o sangue e a Nação.
Até o loiro dos cabelos da tua Marília chorou
Colorindo a bandeira que cobria o teu caixão.
Oh, Chico, Marília, virgem para sempre ficou.
 
João Pita
escrito entre 1974 e 1978.
 

 

Mulher Portuguesa

 

Poema de Maria João Brito e Sousa

in

poetaporkedeusker.blogs.sapo.pt/ 

 

 

Se eu for ao mar chorar por ti,

Se eu for ao mar de manto negro,

Talvez o mar perceba o que senti,

Talvez o mar entenda o meu segredo…

 

Se nesse mar eu me perder um dia,

Se mergulhar nesse seu sal sem fim,

Talvez possa encontrar o que queria,

Talvez descubra o mar dentro de mim…

 

E nesta condição de ser, no cais,

Mulher e mãe e filha e companheira,

Talvez o próprio mar me queira mais…

 

Se um dia for ao mar contar quem sou,

Talvez o mar, em mágoa verdadeira,

Chore comigo e abrace a minha dor…

 

 

Magnifico soneto de Maria João Brito e Sousa

in

poetaporkedeusker.blogs.sapo.pt/

 

A poesia de Adriano Alcantâra

 

A visita do poeta de África e do mundo, que proclama "a utopia de olhos escancarados", ao nosso -  menino de áfrica, - foi um previlégio.

Aqui partilhamos o presente que, na sua humilde grandeza, nos ofertou.

 

Obrigado, Adriano Alcantâra.  

 

 

A TORTO DIREITO


Sussurram tempos e contrariedades,
caem dias a torto e a direito.
Fica quem tudo a eito leva,
e não quem de todo a nada chega.
Escondo-me atrás de mim
e vejo-me tinto no copo,
do olhar do mundo afastado.
Olho-me e ouço as cousas ficarem
no fluir de um sussurro, no osso
de um momento, teus lábios
fugidios na ponta da noite além
onde me aconchego e escondo,
torto em sábios dias aí tecidos,
aqui direito em nós de luz.


Adriano Alcântara



Novembro quente, água-pé na mente. 2007

 

 

Liberdade?

 

Destino
Fado, canção da vida.
 
 
Belo Éden  Deus,
Ao insatisfeito homem deu.
 
Egoísta, egoísta, egoísta!
Ser perverso pior que fariseu.
Deram-te a alma num sorriso
 
E a mão!
 
Tu a espezinhas,
O braço escalas, arranhando-o
Ao ombro chegas
Com arrogância.
Pestilência de pó, corrupto pecado
O sorriso desfazes,
 
Volatilizas!
 
O que outrora belo era
Por culpa tua, igual meu
Hoje não passa dum sopro
Nos lábios dos bem-aventurados.
 
Sem sorrir
Sem sequer olhar para o lado
Para a frente, para o alto...
Para Deus que a ti te deu
Dizes...
 
Liberdade?
 
E eu…
Sorri, sorri e sorri ainda mais.
Abri os olhos e vi!

 

O menino de África

Poderá parecer uma deriva do proposto, no entanto, a actualidade com a ameaça de crise alimentar e a deficiente gestão da Dignidade Humana   é tão pungente que apetece evocar a memória...

 Carregue em PLAY e ouça ...

O inicio...

Eu sou o menino de África

Correndo feliz pela matas verdejantes
Trepei mangais, cajueiros e coqueirais
Bebi água de coco e do caju cajuada
Nadei em nascentes, rios e cascatas
Brotando do alto de rochas escarpadas.
Nelas agucei a ponta de minha lança 
Com ela corri savanas como alce alado 
E cacei leão como quem dança.
 
Eu sou o menino de África 
 
Olhando espantado de medo
O homem do mar de cara branca.
Tão branca, tão alva, tão diáfana.
Que se curvou mudo e submisso
Pensando encarar o deus
Dos mares profundos e infindos.
Que fugiu apavorado quando o tiro rugiu
 

Troando das mãos do senhor branco

Pensando ser …“deus” zangado.

 
Eu sou o menino de África

Que seu corpo livre e despido

Viu vestido de trajes e tecidos.

Assim perdeu a pureza genuína

Da nudez que sempre a vestiu. 
Que viu bandeira que não a sua 
Hastear-se no meio do terreiro
Da terra livre que sempre o viu correr.
 
Eu sou o menino de África
 
Que o homem de cara branca,
Que mais parecia “deus” do mar 
Explorou, vendeu e escravizou.
Que viu seu pai ser caçado
 

Arrastado, preso e manietado

 

Embarcar em naus de velas brancas
E acorrentado, ser vendido como escravo.

Eu sou o menino de África

Que lutou em lutas fratricidas
 

E em guerras que não as suas

A mando do senhor da sua terra.

Um dia fugiu e, os seus juntou,
Dando asas de liberdade à ânsia
De tornar sua a terra de seus avós
Que, em si, de o ser nunca deixou.
 
Eu sou o menino de África

Que há muito olvidou
O som de batuque da chuva caindo
O aroma intenso da terra embriagada 
Evolar-se no ar, formando nova chuva.
Que há muito não sente
Na planta dos pés descalços
A húmida terra das chuvas verdejantes
E a aveludada frescura da erva molhada.
 
Eu sou o menino de África
 
Que viu pó seco e asfixiante 
Amortalhar terras livres e férteis
Até onde a vista não alcança.
Sugar do útero de suas entranhas
O sémen fecundo das sementeiras.
De suas veias, o filão de água cristalina,
De sua face, o verde das plantas
E o viçoso orvalho das madrugadas.
 
Eu sou o menino de África
 
Que já não corre feliz
Pelas matas verdejantes
... Antes sonha com elas.
Nos delírios sonolentos da fome, 
Sonha um sonho lindo
Que o homem, um dia teve 
 
... Os direitos da Criança....  
 
Eu sou o menino de África 
Que não sente os bichos e os insectos 
Pousados em seus olhos cegos e abertos
Sugarem o sangue de suas chagas
Sorverem a humidade do Grito alucinante
Mudo em sua boca aberta e calada. 
 
Eu sou o menino de África
Que, já não sonha, nem dorme. 
 
Apenas é,
Está.
Em vida jaz ali!
 
Mhundo!
 
Liberta-me desta morte em vida
Oferta-me a vida que não vivi!
Liberta-me dos direitos meus 
Escritos para crianças que não eu.
Deixa-me ser, só uma vez, criança
Sem direitos, sem nada, só criança.
Não deixes que seja sempre
O teu menino de África!
 
Eu já não sou o menino de África
 
Agora... aqui
Na etérea e viçosa abundância
Olho e não te vejo
Também tu não me vês a mim.
Brinco... Até que enfim...
Tornei-me menino, criança
A rir, a cantar, a sorrir
...
Eu já não sou o menino de África!
 
... E o Fim!
 

 João Pita

 
 

Varina, filha da nossa gente.

  
foto de João Pita
 
 
 
- Sardinha fresca, sardinha fresca da praia!
  
O sol brilha no alto do céu azul e quente.
O mar chão acaricia as areias mornas da praia.
Lá  longe, mar adentro no molhe, a ronca está  calada. 
  
Varina, mulher do meu povo, filha da nossa gente.
Tua voz forte ecoa, trespassa as gentes e a calçada.
De madrugada acartaste barcos e não pareces cansada.
   
- Oh dona... tome lá um quilo... e bem pesada!
... Não tem escolha, é toda com'a prata!
- Leve que é pr'a acabar e ficar aviada!
 
Guardas o dinheiro da troca no regaço quente.
- Na, que ele é pouco e de muita precisão.
Teus filhos dele vão comer, calçar e vestir.
Por eles transborda de amor inquieto teu coração.
Tão cedo abalas, nem os vês medrar e para o mar partir
 
- Sardinha fresca, sardinha fresca da praia!
 
 À cabeça, a canastra de vime levas já  destapada.
Teus alvos braços erguidos, nús e arregaçados
Erguem o fecundo regaço quente e teu peito roliço.
À noite, cansada, teu homem e tu abraçados
Como mar e terra desde sempre ligados.
 
Sentes o fugaz do seu cio, qual sumiço.
Desconsolada, para o lado te deitas resignada.
 
Varina mulher do meu povo, filha da nossa gente
Teu avental bordado sorri, qual mar rendilhado
Teu homem não tem, hoje, mar que o apoquente.

 

 

Velho pescador do meu rio

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  O som do rio revolto ecoa no vulto negro das pedras do molhe recortado pelo branco da espuma da rebentação na barra.

  O bater das águas na madeira frágil do bote não deixa ouvir o chapinhar dos remos.
  Faz questão de mostrar quem manda, o Mondego, e faz-se ouvir, zangado, na noite fria de inverno.

Vulto erecto de oleado vestido segurando a rede, cabelos brancos de amarguras vividas ondulando ao vento. Por entre a chuva fustigada pelo vento vislumbra-se a silhueta do velho pescador do rio, em pé, no bote.

A gélida chuva escorre e serpenteia pelos sulcos das rugas que no seu rosto louvam a força que à má fortuna não cede.

Só a mão forte e calejada se finca num lamento, denunciando um desalento íntimo pleno de amarguras.

Seu companheiro não vê a lágrima furtiva que se mistura com a chuva, no seu rosto.

Com os olhos fixos na rede relembra, qual filme, todo o percurso dos seus anos.

Relembra o pavor do desconhecido quando, ainda menino e pela mão de seu pai, embarcou pró bacalhau.

A dor intensa do gelo da Gronelândia, qual punhal de vidro e aço, que lhe trespassava as mãos ao manejar o "trote", o "pucheiro", a faca, o "trole", a zagaia, o pingalim ou a isca, não foi nada comparada com a vaidade de ser "o primeira linha" ou o melhor escalador.

Relembra a meninice dos filhos. A angústia de, às vezes, os ter ouvido chorar com fome. A ansiedade de só ter conhecido o mais velho já quase com meio ano de idade.

O medo atroz que o fez rogar a Deus implorando que os tornasse a beijar, quando em pleno Atlântico naufragou e, alucinado de sede, os via junto a si dando-lhe forças para não desistir.

As saudades que deles sentiu, quando para a América fugiu. Já não os conhecia quando os viu.

Sua mulher, já velha, soube-lhe a fresca, a nova quando passados anos de separação a tomou. Foi como reviver a fogosidade dos anos da juventude longínqua.

Enterrou bem fundo dentro de si todos os temores da infidelidade traiçoeira que a separação favorece, mas o amor puro não consente.

 

Ah... Pescador ...

Ainda menino, pró bacalhau embarcaste

Já homem, pela América, fugido, andaste

E no Atlântico um dia naufragaste.

Fortuna, prós teus, sempre procuraste

Riqueza nunca encontraste.

Os teus, jamais esqueceste e sempre amaste

Os amigos, nunca olvidaste

Só de ti pescador, nunca te lembraste.

 

O rio, negro, furioso, altivo como que a expulsar-te.

O teu rosto sereno e forte todo o teu mundo retractando.

 

Meu Deus... Que contraste!

 

 

 

Caravela Sagres St MManuela e Creoula

João Pita

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