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Cova d'oiro

... algures na costa portuguesa mesmo a sul da foz do rio Mondego. Era, como se dizia então, um bom pesqueiro. Havia fartura de pescado e as artes, ainda novas e de não fácil manuseio, vinham carregadas até á vergueira

Cova d'oiro

... algures na costa portuguesa mesmo a sul da foz do rio Mondego. Era, como se dizia então, um bom pesqueiro. Havia fartura de pescado e as artes, ainda novas e de não fácil manuseio, vinham carregadas até á vergueira

corda01

Homens à Beira-Mar

 

 

"Em Busca de Mais Mar e Mais Vazio…"

 

 

HOMENS À BEIRA-MAR

 

 

Nada trazem consigo. As imagens

Que encontram, vão-se delas despedindo.

Nada trazem consigo, pois partiram

Sós e nus, desde sempre, e os seus caminhos

Levam só ao espaço como o vento.

 

Embalados no próprio movimento,

Como se andar calasse algum tormento,

O seu olhar fixou-se para sempre

na aparição sem fim dos horizontes.

 

Como o animal que sente ao longe as fontes,

Tudo neles se cala p'ra auscultar

O coração crescente da distância

E longínqua lhes é a própria ânsia.

 

É-lhes longínquo o sol quando os consome,

É-lhes longínqua a noite e a sua fome,

É-lhes longínquo o próprio corpo e o traço

Que deixam pela areia, passo a passo.

 

Porque o calor do sol não os consome

Porque o frio da noite não os gela,

E nem sequer lhes dói a própria fome,

E é-lhes estranho até o próprio rasto.

 

Nenhum jardim, nenhum olhar os prende.

Intactos nas paisagens onde chegam

Só encontram o longe que se afasta,

O apelo do silencio que os arrasta,

As aves estrangeiras que os trespassam,

E o seu corpo é só um nó de frio

Em busca de mais mar e mais vazio.

 

 

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

1944

 

 

Pescadores de bacalhau da Cova-Gala (01).

 

Aproxima-se o dia em que a merecida homenagem ao homem do mar da Cova-Gala, personificado na figura do pescador de bacalhau à linha, vai ter lugar.

Será, decerto, um Bom Dia.

Apesar de o motivo e o modelo escolhido, que não a idéia, ser fruto de névoas e brumas escusas de pelágicas desconfianças, ao invés da clara participação na escolha, aberta e universal, onde todos os covagalenses interessados pudessem ter tido legítimo lugar ... vai ser um Bom Dia!

Mesmo que a estética do elemento escultórico escolhido seja ...mais assim, ou ... mais assado, será SEMPRE um bom dia.

Mesmo que os eleitos, eventualmente, não consigam libertar-se das grilhetas da presunção e dos pressupostos politicos, ... será sempre um BOM DIA!

E, aqui, na COVA-GALA, - povoado que proclama bem alto a sua  identidade assente em raízes da Cova, da Gala, do mar que nos banha e de todo esse, outro mar, onde os seus homens consolidaram uma história de trabalho e de grandeza - esta homenagem ganha uma legitimidade ímpar.

 

A cidadania e a sintonia com estes valores faz-nos querer participar. Tentando ajudar a entender as "grilhetas da presunção e dos pressupostos politicos", (quando a mesma é rasteira), conforme assistimos há um mês atrás em Lavos e, a um outro tempo, enaltecer a legitima e verdadeira homenagem a ter lugar na Cova-Gala.

 

Com a preciosa ajuda do Museu Marítimo de Ilhavo é possivel provar que a grande , a esmagadora maioria dos pescadores do bacalhau, nascidos em Lavos, são oriundos e naturais da Cova e da Gala.

 

Começamos, hoje, a publicar as cédulas maritimas dos nossos antepassados.

Por razões de "peso digital", ou de próprias limitações técnicas, somos obrigados a dividi-las em várias apresentações.

Hoje, a primeira, por ordem alfabética.

 

 

 

 

O Homem do mar da Cova-Gala! .. É desta??

 

 

A idiossincracia do povo da Cova e da Gala está umbilicalmente ligada ao mar.

 

Foi pelo mar que aqui chegaram, à Cova d'oiro, nos idos tempos da década de 70 do século XVIII.

Foi no mar que os homens e, também, as mulheres deste povo forjaram o seu temperamento peculiar enquanto entidade colectiva.

 

Já alguém disse que ..."do mar emergem as raízes deste povo, dele se eleva a sua história".

 

Nem imaginam o quanto e porque concordo com esta frase que está, aliás, registada e gravada a bronze num elemento escultórico no largo da Alminhas.

 

Nos primeiro tempos da fundação os homens da Cova amanharam o mar nas árduas lides das artes da praia (modernamente designada xávega).

Desde as últimas décadas do século XIX e até  meados do século XX  temperaram com o sal do mar do Atlântico norte o suor desse esforço insano, que foi a epopeia da pesca do bacalhau à linha.

Na frota da Figueira da Foz  as companhas dos esbeltos lugres bacalhoeiros eram, na sua grande maioria, compostas por homens da Cova e da Gala.

Longos meses vogando em alto mar entregues a si próprios na solidão dos dóris, sentindo no rosto  o afago amargo da surriada, temendo pelo inebriante e desorientador nevoeiro da Terra Nova e Gronelândia, perspectivavam a viuvez das mulheres e a orfandade dos filhos.

 

Por tudo isto, unanime e orgulhosamente aceite pela população da freguesia de S. Pedro, se justifica que, há mais de doze anos, exista o projecto de perpétuar, em elemento escultórico, (vulgo estátua) a mémória do homem do mar da Cova-Gala.

 

A verdadeira homenagem a este homem do mar é na  freguesia de S. Pedro que deve ter lugar!

 

Com a dignidade que os nossos antepassados merecem!

 

Tenho receio que tal dignidade seja conspurcada pelos interesses de ocasião que os anos eleitorais  são ávidos em proporcionar.

 

O facto desta homenagem, - que vai ser paga por TODOS NÓS ao contrário do que alguns pensam,  - estar a ser tratada e gerida nos confins dos segredos mais envergonhados e nas brumas de complexos temores de pelágia desconfiança, não augura nada de bom.

 

A cultura, se não for partilhada e vivida pelas comunidades a que dizem respeito é e será sempre MENOR.

 

Como, há quatro anos, foi MENOR a cerimónia do hastear dos símbolos hieráldicos da freguesia de S. Pedro que,  por imposição de interesses e negociatas politico-partidário pseudo independentistas, foi transformado num "grandioso e de sucesso" comício de propaganda eleitoral e a que não faltaram, inclusivé, aspectos censórios.

Foto de João Pita -Local da homenagem ao pescador?

 

 

Foto de João Pita - Obras para a estátua do Pescador?

  

 

 

Velho pescador do meu rio

 

 

O som do rio revolto ecoa no vulto negro das pedras do molhe recortado pelo branco da espuma da rebentação na barra.

  

O bater das águas na madeira frágil do bote não deixa ouvir o chapinhar dos remos.

Faz questão de mostrar quem manda, o Mondego, e faz-se ouvir, zangado, na noite fria de inverno.

Vulto erecto de oleado vestido segurando a rede, cabelos brancos de amarguras vividas ondulando ao vento. Por entre a chuva fustigada pelo vento vislumbra-se a silhueta do velho pescador do rio, em pé, no bote.

A gélida chuva escorre e serpenteia pelos sulcos das rugas que no seu rosto louvam a força que à má fortuna não cede.

Só a mão forte e calejada se finca num lamento, denunciando um desalento íntimo pleno de amarguras.

Seu companheiro não vê a lágrima furtiva que se mistura com a chuva, no seu rosto.

Com os olhos fixos na rede relembra, qual filme, todo o percurso dos seus anos.

Relembra o pavor do desconhecido quando, ainda menino e pela mão de seu pai, embarcou pró bacalhau.

A dor intensa do gelo da Gronelândia, qual punhal de vidro e aço, que lhe trespassava as mãos ao manejar o "trote", o "pucheiro", a faca, o "trole", a zagaia, o pingalim ou a isca, não foi nada comparada com a vaidade de ser "o primeira linha" ou o melhor escalador.

Relembra a meninice dos filhos. A angústia de, às vezes, os ter ouvido chorar com fome. A ansiedade de só ter conhecido o mais velho já quase com meio ano de idade.

O medo atroz que o fez rogar a Deus implorando que os tornasse a beijar, quando em pleno Atlântico naufragou e, alucinado de sede, os via junto a si dando-lhe forças para não desistir.

As saudades que deles sentiu, quando para a América fugiu. Já não os conhecia quando os viu.

Sua mulher, já velha, soube-lhe a fresca, a nova quando passados anos de separação a tomou. Foi como reviver a fogosidade dos anos da juventude longínqua.

Enterrou bem fundo dentro de si todos os temores da infidelidade traiçoeira que a separação favorece, mas o amor puro não consente.

 

Ah... Pescador ...

Ainda menino, pró bacalhau embarcaste

Já homem, pela América, fugido, andaste

E no Atlântico um dia naufragaste.

Fortuna, prós teus, sempre procuraste

Riqueza nunca encontraste.

Os teus, jamais esqueceste e sempre amaste

Os amigos, nunca olvidaste

Só de ti pescador, nunca te lembraste.

 

 

O rio, negro, furioso, altivo como que a expulsar-te.

O teu rosto sereno e forte todo o teu mundo retractando.

 

Meu Deus... Que contraste!

 

 

 

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